segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Conversa profunda

-- Eu só comi hóstia uma vez, na primeira comunhão. Depois não fui mais à missa.
-- Eu nunca comi. Só tenho o batizado. Já não fico no Purgatório.
-- No Inferno. Quer dizer, não vai pro inferno por causa do pecado original.
-- Não, os não batizados ficam no Purgatório segundo Dante, não?
-- Você vai porque é uma infiel.
-- Mas eu sou batizada... vou pro Céu ou pro Inferno, mas não pro Purgatório.
-- Por que não?
-- Porque só ficam no Purgatório os não batizados, segundo A divina comédia.
-- Muito intelectual a sua referência.
-- Eu tive que ler Dante, fazer o quê?
-- No catecismo a coisa era simples: o batizado cura; os não batizados vão para o Inferno porque ainda carregam o pecado original. Mas você pode cometer outros pecados mortais e ir parar no Inferno, mesmo depois de fazer batismo, primeira comunhão, crisma, casamento, entrar pra ordem etc.
-- Entendi.
-- Os dez mandamentos quase todos, assassinato, adultério, suicídio...
-- Eu vou pro Inferno de acordo com a religião ou com Dante. Dá na mesma.
-- É. Infiel.
-- Com muito orgulho!
-- Tá me levando pro mau caminho...
-- Eu tô. Não é legal ser do mau caminho?
-- Ô.

***

-- Viu a minha lista? (Postada em euadorolistas.wordpress.com)
-- Vi. Você tem que ser mais bem-humorada, tava parecendo professor de português...
-- Ah, eu fiquei com preguiça de bolar textos engraçadinhos.
-- O que é "janota"?
-- É pessoa efeminada... Homem elegante, efeminado...
-- Me lembra umas dessas coisas que o mecânico inventa no carro.
-- Me lembra joelho...
-- Essa conversa tá muito Seinfeld.
-- Aquela coisa que dá no pé... Joanete! Joelho e joanete estão perto...
-- Depende do tamanho da canela, Elaine.
-- "Elaine"? Quem é essa?
-- É a old Christine.
-- Elaine ou Christine?
-- Julia. O nome da atriz. Christine é do programa The New Adventures of Old Christine. A atriz é a Elaine do Seinfeld. Que era produtora de uma editora também...
-- Na série?
-- É.
-- A série já acabou?
-- Já, há mais de dez anos.
-- Por que você se lembra disso?
-- Porque Seinfeld é a melhor série de comédia de todos os tempos! É como Chaves e Chapolin. Todo mundo se lembra de sanduíche de presunto, chuva de aerolitos, "já chegou o disco voador"...
-- Era de presunto ou mortadela?
-- De presunto.
-- Eu tenho memória seletiva. Via e revia Chaves, mas não lembro mais nada. Pra que preciso?
-- Pra que você precisa saber tanta coisa sobre Lost?
-- Eu nem sei mais, tô esquecendo já. E não faz nem um ano que Lost acabou.
-- Aliás, uma camisa com a estampa "Já chegou o disco voador" venderia muito...
-- Isso era uma música.
-- Não, "já chegou o disco voador" é do Chaves.
-- Não é trecho de música?
-- Eu não lembro. Eu sei que o Seu Madruga mandou o Chaves avisar quando o Seu Barriga chegasse.
-- Tô tentando lembrar o ritmo. Tem, sim, uma música com esse trecho. Evandro Mesquita? Um desses aí... Ou Paralamas?
-- Jorge Ben. "Os marcianos estão chegando".
-- É! Viu como tem?
-- Mas não é disco voador.
-- Ele não fala "já chegou o disco voador" na música?
-- O Jorge Ben?
-- É.
-- Eu errei. O nome da música é "Os alquimistas estão chegando".
-- Ele fala ou não fala?
-- Acho que não.
-- Jura que vou ter que ouvir Jorge Ben pra saber?
-- Podia ser pior, você podia ter que ouvir Calypso. Apocalypso, na verdade.
-- (ouvindo a música "Os alquimistas estão chegando") Acho que não é essa a música. Mas de fato é do Jorge Ben.
-- Amarelou pro Jorge Ben.
-- Ou é do Jorge Ben e o Paralamas canta?...
-- Se o paralamas canta, vai no mecânico, a janota tá com defeito.
-- Sério mesmo, vou ficar com esse troço na cabeça.
-- Eu sou mau!
-- Que música idiota essa dos alquimistas...
-- É Jorge Ben, pô. Nada faz sentido.
-- RAUL SEIXAS!
-- Xi...
-- Não, não é Raul Seixas... Ahhh, que música é essa?
-- Não existe música com "já chegou o disco voador".
-- Não lembro se é essa frase exata, mas cantam "disco voador", e é definitivamente um ritmo tipo Jorge Ben.
-- Pô, aí é muito vago.
-- Como eu posso achar isso?
-- Sei lá. Escreve "disco voador" no Google.
-- Foi o que eu fiz, achei essa do Raul Seixas, mas não era. Enfim, o Pete Best agora tá com vontade de ser beatle, você viu? Depois de cinquenta anos. É mole? Um pouco atrasado...
-- Eu acho o contrário: ele foi adiantado demais. Timing não é o melhor dele.
-- Adiantado como?
-- O Pete Best não foi o baterista antes do Ringo?
-- Foi.
-- Então, tava adiantado.
-- Mas talvez ele fosse mais sem graça que o Ringo. Ringo só tem graça no nome. Nome de cachorro.
-- Isso que ia falar. O Ringo não faz nada.
-- Mas acho que o Pete Best também seria meio zero à esquerda também. Ele não combina com os outros.
-- Você nem conhece o estilo do Pete Best. Ninguém conhece. O cara é o coitado oficial da Inglaterra.
-- Não é de estilo, é de físico que digo que não combina. Os quatro tinham mais ou menos o mesmo porte. Pete Best é minguadinho, pelo menos na época. Mas esse show deve ter sido maneiro (Pete Best e João Barone fizeram um megashow em Vitória).
-- O Paul é baixinho e magrelo. Só o George parece alto.
-- Eles tinham a mesma altura.
-- Sério?
-- Já viu eles tocando no palco? O John que era um pouco mais alto.
-- Já, mas nunca reparei.
-- Paul e George compartilhavam microfone. Mesma altura. Pela capa do Abbey Road também dá pra ver.
-- É, mas sempre parecia que o George se curvava. Sei lá, essas coisas que a memória prega na gente.
-- Acho que é porque o George era mais magro, afinava, parecia mais comprido. Pela capa do Abbey Road todo mundo tem diferenças mínimas. O Pete Best era baixinho, meio mignon.
-- Você pegou mania de mignon. Tudo é mignon. Eu nem sei o que é mignon.
-- Mignon são coisas pequenas. Normalmente mulher, mulher baixinha e magrinha é mignon.
-- É, eu achava, mas você fala toda hora.
-- E bonitinha. Porque feia não dá pra ser mignon.
-- Feia é bucho.
-- Pete Best, se fosse mulher, seria mignon, pronto. Se bem que também não era bonito, enfim.
-- Se fosse mulher, ia ser feia pra cacete. Bucho na certa.
-- Hahahahahaha.

***

-- ALÉM DA VIDA!!! É o nome do filme do Clint Eastwood que eu tava querendo lembrar.
-- Ah, é dele?
-- É.
-- O trailer não pareceu muito bom.
-- Indicado ao Oscar com certeza. Pô, quero ver.
-- Pô, Gran Torino não concorreu a nada. Invictus só teve o Morgan Freeman. Ele já virou Meryl Streep.
-- É com Matt Damon de novo. Matt Damon deve concorrer com ele mesmo -- por esse e por Bravura indômita.
-- É, o casamento do Matt Damon deve estar uma merda: o cara não para de trabalhar.
-- Ou a mulher gasta horrores e ele tem que pagar as contas. Tem um monte de filme bom pra estrear. Quero ver O turista, Bravura, Além da vida...
-- O turista já estreou. Incontrolável e Além da vida também.
-- Engraçado, Bravura não aparece no Globo de Ouro. Será que não estreou a tempo? Ou não foi indicado mesmo? Difícil deixar os Irmãos Coen de fora.
-- Não faço ideia.
-- Aliás, já começou a ler o livro?
-- Que livro?
-- Onde os velhos não têm vez, ué. (Dei o livro de presente pra ele no Natal)
-- Ah, não. Não vou ler tão cedo, sorry.
-- Por quê?
-- Pra não ler dois livros ruins tão colados um no outro. (Ele não gostou do A estrada, outro livro do mesmo autor, como diz em pedradasculturais.blogspot.com)
-- Poooooxa, você sempre lê logo os livros que eu te dou...
-- Desse eu tô com medo.
-- Teu amigo disse que era bom, igual ao filme.
-- Ele gosta de tudo que é livro.
-- Bom, mas ele falou que era igual ao filme, e o filme é bom. Pô, não gostou do meu presente...
-- Ah, Pitu. Eu sei que você comprou querendo que eu gostasse. A intenção vale mais nessa hora.
-- Podia ter trocado por outro. Agora já passou o prazo. Eu acho que deve ser igual ao filme, pela folheada que dei...

***

-- A velha daqui debaixo tá gemendo.
-- Tirou o atraso! Vai, veio!
-- Não, gemendo delirando. Ela tá sozinha.
-- Ah, chato. Gemendo alto assim achei que era outra coisa.
-- A filha mora na Barra e os vizinhos que têm que tomar conta. Meu pai já foi lá várias vezes, numa delas ela tava caída no show pelada. Visão do inferno.
-- Caída no show pelada era a Janis Joplin, em Woodstock.
-- No chão.
-- ...
-- Vou dormir.
-- Vai, pitucha safada e janota.
-- Humpf. Janota... Pior que nem posso falar "Janota é você!" senão fica ruim pro meu lado.
-- Hahahaha.
-- Os janotas têm joanete no joelho!
-- E os janotas japoneses?
-- Os janotas japoneses já ganharam joanete no joelho durante a janta da jararaca.
-- Janta da jararaca? Pegou pesado.
-- Hahahaha.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O melhor da Copa

O melhor da Copa não joga futebol, não apareceu nos gramados, não ficou no banco de reservas. O melhor da Copa não faz parte do trio de arbitragem, não é técnico nem locutor esportivo. O melhor da Copa é fofo, mas não chega a ser bonito.

O melhor da Copa se chama Tiago Leifert, o lourinho que dominou as quase madrugadas da Rede Globo em dias de jogo da Copa do Mundo. Entrou de serelepe numa participação no Jornal da Globo e ganhou um programa próprio apresentado depois do telejornal noturno, o Central do Copa, do qual virei espectadora assídua.


Eu não ligo para futebol, mas sempre gostei da movimentação e da paralisia que a Copa dissemina nos brasileiros. Em dia de jogo do Brasil ninguém trabalha, ninguém estuda, todo mundo volta cedo pra casa pra ver a Seleção brilhar. Tudo bem, infelizmente foi a Seleção que voltou pra casa cedo demais esse ano, mas a minha maior preocupação foi: o Central da Copa vai acabar?

Acontece que Tiago Leifert - jornalista, 30 anos, editor e apresentador do Globo Esporte paulista - inovou: colocou a espontaneidade, o carisma, o charme e o talento como comunicador à frente de um programa que vai ao ar num horário ingrato e ainda assim conquistou fama nacional. Central da Copa é divertido, muito bem editado, informal e interativo. A plateia fica à vontade e os convidados - outros jornalistas, cantores, jogadores de futebol, atores e atrizes - entram num clima de informalidade difícil de se encontrar em outra atração.

O sucesso foi tanto que há um movimento no Orkut e no Twitter para que a Rede Globo formalize uma proposta de programa para Leifert e seu parceiro incorrigível, o ex-jogador Caio Ribeiro (que parece um ursinho de pelúcia), apresentarem no ano que vem. A zoação entre os dois torna o programa ainda mais divertido e torna um assunto às vezes chato numa discussão acalorada. A pressão é tanta que já corre a notícia de que um dos diretores da emissora de fato esteja pensando na ideia. Tiago, no entanto, negou ter sido procurado sobre alguma proposta.

Tiago Leifert se junta à turma de Tadeu Schmidt, outro que inovou à frente da seção de esportes do Fantástico. Infelizmente hoje, com o final da Copa, foi ao ar o último Central - no qual ele estava impagável dançando o Rebolation junto com a chata da "argentina" Marina. Não faz mal. Esperamos 2014, esperamos por você, Tiagooooo!!!


domingo, 23 de maio de 2010

Hoje!


Não basta assistir. Tem que participar. E foi assim que Lost, cujo último episódio vai ao ar HOJE nos Estados Unidos, nasceu e mudou o jeito de se ver TV. Nada foi e nada será como Lost: um fenômeno mundial que está mobilizando milhões de fanáticos ao redor do mundo neste exato momento.

Lost partiu do desencadeamento de um (muitos!) enigma(s), e a busca por sua solução foi o motor que a impulsionou e manteve a narrativa. Pois bem. Inicialmente a série narra a história de um grupo de sobreviventes de uma queda de avião que se encontra numa ilha e só quer saber de ser resgatado e voltar para suas vidas medíocres e normais. Eventos estranhos acontecem, mas todos os mistérios servem apenas como obstáculos que os impedem de escapar dali. Não parte deles a curiosidade ou o impulso de encontrar respostas: o papel do detetive das séries policiais é desempenhado pelo próprio espectador, que busca em fontes preexistentes do mundo real - exterior à ficção - a relação entre personagens e filósofos, acontecimentos e fenômenos físicos. Lost incluiu referências do nosso mundo real - Bíblia, cinema, literatura, filosofia, história da arte e religião -, o que tornou a série bastante palpável aos espectadores fanáticos para decifrá-la.

A demora na revelação fez com que muitos espectadores desistissem da série no meio do caminho. O urso polar que aparece no meio de uma floresta tropical nos primeiros episódios da primeira temporada foi o que me chamou a atenção para assistir à série. O que aquele urso polar fazia ali? Me deixei hipnotizar pela estrutura novelesca, pelos mistérios e pela construção dos personagens e... acabei me envolvendo. Não consegui mais largar. Mas é bem plausível achar que os produtores nos devem respostas. Imagina assistir a uma série de mistério sem desvendar mistério algum? Afinal, o que move uma série de suspense é exatamente a recompensa. A resposta para o urso polar só nos foi apresentada na terceira temporada e, até lá, milhões de outros mistérios, maiores e mais importantes, já tinham aparecido para ocupar a minha cabeça.

Por outro lado, o mais legal de ter participado de todo esse fenômeno foi ter dado um real sentido ao verbo "participar". Perdi horas da minha vida procurando na Bíblia, na internet e em um monte de outros lugares respostas que explicassem decentemente todos aqueles mistérios. É um bom exercício se você pensa que poderá estar certo ou errado algum dia. A minha principal decepção nesta sexta temporada foi o fato de não poder saber se as minhas e as teorias que li por aí realmente se convencem. As respostas que eles resolveram nos dar jogaram nas coxas. Aprendi a deixar alguns mistérios de lado, sabia que não poderiam responder a todas as questões. A maior parte deles foi pura encheção de linguiça que não influenciariam na história como um todo. Não haverá respostas, tudo bem, não para tudo. Agora também não dá pra lamentar, só resta esperar o final. A grande pergunta do momento é: como tudo vai terminar?

E, olha, ao contrário do que imaginava estou bastante empolgada para assistir ao Lost finale - só amanhã, infelizmente. Estou empolgada porque passei por uma viagem maravilhosa que rendeu seis anos da minha vida. E amanhã, depois do último episódio, será literalmente the end, fim. Nunca mais vamos sentir o nervoso, o calafrio, a espera - a looooonga espera - entre temporadas... Pior que isso, nunca mais sentiremos a experiência que Lost nos proporcionou.

Essa obsessão nos remete a um outro patamar: a participação cada vez maior de consumidores quanto à produção e à difusão de informação - a chamada cultura da convergência. Lost é o maior exemplo disso: da TV, passando pelo celular, por videogames e principalmente pela internet, até chegar à nossa mesa redonda no bar. Lançou uma linha de produtos que complementam a trama original, promoveu o merchandising de camisas e bonecos - entre os mais vendidos em lojas especializadas - e foi o motivo da criação de centenas de blogs e sites sobre o tema, a fim de discutir os eventos ocorridos na série. Por isso, Lost é considerada a série mais famosa e de maior repercussão da década.

O produtor Damon Lindelof pediu em seu Twitter que evitássemos spoilers, pois inevitavelmente muita coisa vazaria, que guardássemos a surpresa para o final derradeiro.

Mas eu não me aguentei. Saí à cata de informações sobre a finale. Descobri alguns minispoilers que não significam muita coisa, e descobri também a mobilização que Lost causou neste domingo. Pra citar um exemplo, a prefeitura de Nova York instalou um contador em plena Times Square com os minutos faltantes para a series finale. Lost apareceu na capa de dois dos maiores jornais dos Estados Unidos e numa matéria do Clarín argentino, enquanto no O Globo foi a terceira matéria mais lida do site do jornal:


Dá até tristeza de saber que uma série deste calibre, que revolucionou a maneira de ver TV e contribuiu fatidicamente para o fim da passividade do espectador, está chegando ao fim. Valeu a pena esperar? Claro que valeu. Assim como tenho certeza de que, apesar de algumas decepções, terá valido a pena toda essa relação de amor e vício que Lost provocou em pessoas de todo o mundo quando "The End" chegar.

***
O que será de nós, após Lost?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Hoje!

Hoje é o 33º dia do ano.

Hoje eu fiz um ano na Ediouro.

Hoje eu li um livro inteiro.

Hoje eu almocei macarrão.

Hoje eu falei com o meu namoradinho.

Hoje saíram os indicados para o Oscar.

Hoje tem paredão.

Hoje o médico de Michael Jackson decidiu se entregar.

Hoje um alemão subiu o Empire State Building em dez minutos.

Hoje é aniversário da Shakira.

Hoje fez um calor de lascar.

Hoje seria o discurso urgente do presidente Obama - e ele adiou.

Hoje é o começo do fim da melhor série de TV de todos os tempos!

Hoje começa o evento mais aguardado do ano!

Aaaaaaahhhhhhhhhhhhhh!!!!!!

Destiny calls. Destiny found.

***
Quem não aguentar esperar até amanhã e/ou não conseguir baixar o episódio que vai ao ar nos Estados Unidos daqui a pouco e não liga pra spoilers pode ler o resumão postado neste madrugada no blog Lost in Lost em www.lostinlost.com.br

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Feliz ano-novo

O que eu mais detesto nas datas festivas de fim de ano é o tradicionalismo medonho e a monotonia que se abate na sociedade em geral - além da proximidade do meu aniversário e, pior!, do Carnaval. Para qualquer lado que você olhe, ouve musiquinhas natalinas irritantes, vê pessoas se esfregando pela rua à procura de presentes cada vez mais baratos, shoppings lotados de retardatários, reportagens nada originais na TV...

É nessa monotonia que Rubem Fonseca ambienta o primeiro conto do livro Feliz ano novo. É no abismo social entre a classe burguesa e a marginalizada, entre a necessidade e a futilidade, entre a perspectiva de um réveillon feliz e farto, que o meu atual escritor brasileiro favorito faz um relato - por que não? - divertido e realista da própria natureza humana. No primeiro conto, homônimo, ele narra os planos de três assaltantes mortos de fome, que precisam catar comida de macumba para ter o que comer, para assaltar a mansão de "granfas". É a violência descrita como um meio de expressão, um grito de socorro. Na última história, "Intestino grosso", o autor descreve uma entrevista pingue-pongue, na qual o entrevistado parece ser ele mesmo. As perguntas e as respostas parecem ter sido uma compilação das entrevistas que Fonseca possivelmente concedeu ao longo de sua carreira. Sexo, pornografia, psicologia, erotismo, linguagem e literatura são alguns assuntos tratados no conto, ou seja, temas que permeiam a sua obra. São os dois contos que mais valem a pena ser lidos no livro lançado em outubro de 1975, que teve sua circulação e publicação proibidas em todo o território nacional pelo Departamento de Polícia Federal, sob a alegação de "exteriorizar matéria contrária à moral e aos bons costumes".

Das mesmas acusações sofreu Nelson Rodrigues, vinte anos antes, ao chocar a leitura do leitor mais conservador com os pecados e as tragédias da classe média carioca de então. Rubem Fonseca, assim como o jornalista precursor, surpreende ao narrar depravações, putarias, cenas de sexo explícito e assassinatos sem motivo. Para o senador Dinarte Mariz, em declaração publicada na Folha de S.Paulo de 1977, suspender Feliz ano novo foi pouco. "Quem escreveu aquilo deveria estar na cadeia e quem lhe deu guarida também. Bastaram meia dúzia de palavras. É uma coisa tão baixa que o público nem devia tomar conhecimento."

Para a cabeça dos conservadores, pode até ser. Mas para os liberais de hoje, e até mesmo para os daquela época, Feliz ano novo não é motivo para tanto estardalhaço. Excetuando-se alguns poucos textos, quem conhece o autor vai perceber que os protagonistas são crus demais, não ousam tanto e que o autor se mostra até muito bonzinho para o seu padrão. Por isso, destaco apenas os contos já supracitados, além das duas partes de "Passeio noturno", em que ele mostra seu sangue-frio perverso. A violência, o melhor recurso da obra de Rubem Fonseca tão presente em Feliz ano novo, é a tradução para a ficção da realidade que vemos todo dia na TV, do tradicionalismo e da monotonia em que a nossa tragédia coletiva e particular se insere.

Como relata Zuenir Ventura para a revista Visão, de 1975, "o que inquieta no livro é que esse mundo marginal distante se vai aos poucos revelando como nosso próprio mundo, onde os desvios são cada vez mais a norma".


***
No décimo-quarto dia do ano (beeeem atrasada - eu estava trabalhando, gente!), venho aqui desejar um feliz ano-novo a vocês por aí que perdem de vez em quando (quase nunca) alguns minutos do dia pra ler meu blogzinho. hehe

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

No meio do caminho havia uma cerca

"É muito difícil descrever a história de O menino do pijama listrado. Normalmente, o texto de orelha traz alguma dica sobre o livro, alguma informação, mas nesse caso acreditamos que isso poderia prejudicar sua leitura, e talvez seja melhor realizá-la sem que você saiba nada sobre a trama."

(Esse é o texto da primeira orelha do livro O menino do pijama listrado (The boy in striped pyjamas, Companhia das Letras, 2007). Portanto, se você não gosta de spoilers, ou seja, se ainda quer manter-se na surpresa, não continue a leitura deste post.)


As palavras "inocência" e "guerra" já se esbarraram no cinema. Só para citar um exemplo (na verdade, não consegui lembrar de outro hehe), em A vida é bela (La vita è bella, 1998) o garotinho judeu é poupado de ver a realidade da guerra porque o pai, interpretado por Roberto Benigni, transforma o cotidiano no campo de concentração nazista em uma grande gincana. E, assim como o belíssimo filme italiano, O menino do pijama listrado trata-se de uma fábula de guerra.

O menino do pijama listrado tem título para crianças, uma capa que chama atenção de crianças e é narrado como se fosse por uma criança numa linguagem fácil para crianças. Há também no livro certos disfarces, recursos de que os adultos se utilizam para explicar coisas difíceis de serem explicadas - e principalmente de serem entendidas - a elas. Apesar de aparentemente para crianças John Boyne dá um nó na garganta de qualquer adulto a cada página, de tão perturbador.

Bruno é um menino de 9 anos que entra em choque ao saber que terá de sair de Berlim - da casa de cinco andares, da rua cheia de árvores, da vizinhança cheia de amigos - para viver em um lugar isolado - numa casa de três andares, numa rua de terra batida, numa vizinhança cujos vizinhos ficam a quilômetros de distância - porque seu pai foi transferido de setor no "emprego", e o tédio toma conta de seu dia a dia. Para dividir sua solidão: a empregada Maria sempre andando de cabeça baixa, a irmã três anos mais velha, um pneu que serve de balanço e uma paisagem nada bonita da janela - uma "fazenda" cujos trabalhadores se vestiam todos iguais delimitada por uma cerca de arame de onde ele nunca poderia chegar perto.


Mas chegou. E no meio do caminho, do outro lado da cerca, estava um outro menino - que fazia aniversário no mesmo dia que ele, era da mesma idade que ele, da mesma altura que ele, só que um pouco mais careca, magro e franzino que ele. Nem Bruno nem Schmuel, o menino do pijama listrado, têm consciência de que a cerca significa muito mais que uma simples delimitação de terras ou de que ambas as famílias estão envolvidas num conflito muito mais terrível do que a vontade deles de voltar para a cidade natal. Da inocência e da ingenuidade nasce uma bela amizade, que nem um monstro horrível como a "solução final" poderia separar.

John Boyne abusa da imaginação ao descrever cenas históricas jamais contadas e ao criar o brilhante final. Um final que dá arrepios, tanto no livro quando no filme (cena, acima), lançado em 2008, que se manteve fiel à história original. Ainda que a adaptação tenha usurpado a narração cativante de Boyne, o principal motor da história continua sendo a ingenuidade e a amizade entre os dois meninos que atravessam as fronteiras da guerra. No entanto, o diretor Mark Herman, além de ter estragado a (minha) surpresa já no trailer, deixa tudo com uma cara comercial demais, aproveitando-se do trunfo inicial de ter a visão infantil do protagonista para a guerra como uma forma de comover o público.


***
A todos um feliz 2010!
Até o ano que vem! (piadinha infame rs)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Uma questão sobre rodas

Algumas semanas atrás aquela fantástica novela das 21h - felizes são aqueles que não a veem - começou com uma discussão que me interessou. Uma questão sobre ética, egoísmo, futuro e sobre rodas.

Acho que mesmo quem não perde seu preciosíssimo tempo vendo uma novela que simplesmente não tem história e onde bons atores são desperdiçados sabe do que está rolando. A personagem da bocuda Alinne Moraes ficou tetraplégica depois de despencar de um penhasco durante uma viagem a trabalho. Beleza. A partir daí seguiu-se o tormento e o martírio desta jovem modelo, que tinha a vida toda pela frente, uma carreira bem-sucedida a seguir, quando, pá!, o chão desaparece sob seus pés e ela se vê imóvel - involuntariamente - na cama de um hospital. (Aliás, a descrição da revista Veja para a boca da atriz quando seu corpo está inerte foi sensacional. tentei achar uma foto que mostrasse a boca enorme dela, mas só achei essa aí acima. rs)

Então, antes da tragédia, a nossa bocuda preferida namorava e estava prestes a se casar com o arquiteto machista Jorge (Matheus Solano). bateu o pezinho pra ir à Jordânia fotografar contra a vontade do futuro noivo, eles brigaram, terminaram tudo, o ônibus despencou e deu no que deu. Chegando aqui, Jorge bancou o rapaz certinho como sempre foi - ao contrário do irmão gêmeo (na foto acima) meio louco que namora uma alcoólatra e arrasta uma asa pra cunhada agora tetraplégica -: levou flores, visitou, disse que a ama, pediu desculpas pela briga blá blá blá A sogra - a maravilhosa (mesmo, sem sarcasmo!) Lilia Cabral -, percebendo o andar da carruagem, tirou Jorge prum canto e fê-lo prometer que se casaria com a menina e ficaria ao lado dela, já que era neste momento que ela mais precisaria dele.

Aí entra em cena a mãe do dito cujo lembrando ao filho de que ele não pode prometer uma coisa dessas, pois tem uma vida inteira pela frente e não pode desperdiçá-la com uma tetraplégica que não tem chance de melhorar num futuro previsível - tudo bem, não foi assim que ela falou, mas estou resumindo a história. Ele argumenta que não pode deixar a bocuda nesse momento, que seria muito canalha se fizesse isso, mas fica com aquela pulga atrás da orelha. A mãe fica desesperada, dizendo que sempre sonhou uma vida normal para o filho, uma vida profissional cheia de sucessos, viagens e um casamento tranquilo, com netos correndo pela casa e tudo o que uma família precisa para ser feliz como num comercial de margarina.

Só que... ela é tetraplégica... Tetraplégica, e dizemos aqui com chance remota de voltar a andar. O que o rapaz deve fazer? Pensar nele mesmo, sair da vida da mulher à francesa - afinal de contas, abandone mas não precisa magoar, né? -, levar sua vida como se nada tivesse acontecido, como se não devesse nada a ninguém, viajar à vontade, casar e ter filhos com outra? Ou manda todas as mulheres que dão mole pra ele catar coquinho, finca o pé dizendo que amor vence tudo, ignora todo o futuro de conforto para ficar de enfermeiro ao lado da mulher amada, além de sofrer todas as restrições que um deficiente sofre hoje em dia?

Por um lado é egoísmo abandonar a menina. Por outro, é desesperador ter que dizer não à própria vida - uma vida que ele sempre sonhou, que sempre quis pra ele - para ajudar a amada a dizer sim à vida dela. Onde se encaixam a ética e o amor quando se tem tanta coisa em jogo?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Um beijo delicado


Dezembro é o mês internacional da aids. Vocês já devem ter visto em pontos de ônibus, outdoors e propagandas na TV uma nova campanha do Ministério da Saúde em homenagem ao Dia Mundial de Combate à Aids em que um casal sorodiscordante - ou seja, quando um tem o vírus e o outro não - se beija apaixonadamente. (Aliás, que beijo é aquele, de tirar o fôlego, meu Deus.)

Um amigo me perguntou o que achava dessa campanha. Ela enfatiza a luta contra o preconceito em relação aos soropositivos. O menino tem o vírus HIV e a menina não. Quando terminam de se beijar, o menino continua com o vírus e a menina continua sem. É, de fato, criativa, prazerosa, bonita de se ver, direcionada aos jovens, respondi. Mas respondi também que talvez essa propaganda possa ser mal compreendida, principalmente pelos adeptos do sexo sem proteção e pelas pessoas sem informação.

Afinal, o que nós, pessoas instruídas, podemos concluir do beijo? Que uma pessoa com vírus pode beijar - beijar, beijar, beijar! - à vontade, sem preocupação, pois já foi provado não ser possível o contágio através da saliva. (Quer dizer, mais ou menos: se o soropositivo e sua namorada tiverem um corte grande na boca, o vírus pode passar por ali.)

O slogan da campanha é "Viver com aids é possível. Com preconceito não", e ela foi distribuída em várias partes do país (como mostra a foto abaixo) e do mundo. Na França, um beijo gay foi repudiado e censurado. É luta contra o preconceito ou não é?


No entanto, acho que a campanha - pelo menos no Brasil - está incompleta. Não é todo mundo que tem acesso à informação, que tem educação o suficiente para discernir sobre o que pode e o que não pode ser feito numa relação sorodiscordante. A propaganda não relata isso. Menciona a saliva, o toque... mas não menciona que sexo deve continuar sendo praticado com preservativos. A campanha só diz para o espectador manter-se informado, entrar no site do Ministério da Saúde e tal, mas se livra da responsabilidade dos atos que essa imagem pode causar. Uma pessoa mal informada pode entender: "Ah, se eu posso beijar, sentar ao lado, eu posso transar também" e libera geral. Acho mais importante dizer como se pega o vírus do que enfatizar como não se pega. Mas aí furaria o tema da campanha. O que conta mais?

***
Para mais informações, entre no site: www.todoscontraopreconceito.com.br
Para assistir à propaganda da TV, acesse: http://www.youtube.com/watch?v=C6rT10z84_c&feature=related

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Libertinagem

Pesquisando sobre Philip Roth e seu personagem Zuckerman, de que tanto Rubem Fonseca fala em seu Diário de um fescenino, acabei encontrando uma boa amostra daquele autor que pode traçar um diálogo com o livro. Chama-se O complexo de Portnoy, cujo narrador-protagonista é um advogado nova-iorquino que relata no divã do psicanalista, alternando passado e presente, a infância edipiana e opressiva ao lado da mãe judia, a adolescência dedicada à prática da masturbação, entre outras "perturbações".

Voltemos ao fescenino. Digo que o livro de Philip Roth pode traçar um diálogo com este por ambos terem: narradores-protagonistas; narradores confessionais (no caso de Roth, para o psicanalista; no caso de Fonseca, o diário); muita putaria e perversão; dois autores muito criticados e cultuados justamente pelo item anterior. Philip Roth é também muito conhecido por seu, digamos, alter ego: o protagonista de vários de seus livros Nathan Zuckerman. Alter ego porque muitos leitores acreditam que Zuckerman é Roth através de atos e pensamentos. Pela semelhança de personalidade, foram cunhadas as expressões "síndrome de Zuckerman" ou "zuckermanianos" dirigidas àqueles que acreditam nesta teoria.

Assim como Zuckerman e Roth, o mesmo fenômeno acontece aqui entre Rubem e Rufus, o escritor protagonista de Diário de um fescenino. Além da semelhança entre os nomes, autor e personagem compartilham a literatura de provocação e não poderiam, por menos, deixar de discutir a relação entre autor e leitor. Rufus é autor de cinco livros, mas apenas o primeiro foi best-seller. Tenta escrever o sexto por pressão de seu editor e, para não ficar louco, inventa de escrever um diário. Nos primeiros dias, tenta descrever esta função, mas, ao lado do relato de seu cotidiano e suas perspectivas, com o passar do tempo, Rufus vai introduzindo suas reflexões mais intensas sobre a vida, seus desejos, sua busca por autocompreensão e, claro, muitas digressões (que são o ponto alto do livro).

A ideia de escrever um diário ou cartas para contar o cotidiano ou o que se pensa sobre a vida não é incomum. O que torna Diário de um fescenino uma obra-prima é a ironia do texto, as referências a escritores estrangeiros, as citações latinas e, claro, o próprio enredo típico de Rubem Fonseca, recheado de cenas eróticas e palavrões. Rufus engana, trai e come todo mundo, e, quando você acha que o livro já está bom sem acontecer coisa alguma, Fonseca surpreende com uma reviravolta, de tal maneira que fica até difícil explicar. Uma boa descrição da sensação que é ler Rubem Fonseca é resumida na quarta capa de seu outro livro A confraria dos espadas, minha próxima leitura:

"A melhor coisa na obra de Rubem Fonseca é não saber aonde ela vai nos levar. Toda vez que começo um livro dele é como se atendesse um telefonema no meio da noite: 'Oi, sou eu. Você não vai acreditar no que está acontecendo.' Bem, talvez não no começo, mas logo já estou acreditando em tudo. Sua escrita faz milagre, é misteriosa. Cada livro dele não é só uma viagem que vale a pena: é uma viagem de algum modo necessária." (Thomas Pynchon)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Viagem de kombi (1)

Foi mais engraçado assistindo do que eu contando aqui.
Peguei a kombi pra Ribeira. Entrou uma mulher logo depois que, visivelmente, não batia bem da cabeça.

"Você vai pra Ribeira, né?", disse ela, perguntando pro motorista.
"Vamos sim, senhora."
"Você sabe onde fica a rua Lourenço da Veiga?"
"É na Ribeira? Então, entra aí que nós acha."
"Você vai me dizer quando saltar, né?"
"A senhora não tem nenhuma referência?"
"Você acha que eu tenho GPS? Liga aí o teu GPS, o GPS da kombi pra ver se acha."
"A gente não tem GPS."
"Olha lá, hein? Eu sou velha, mas não sou burra" e, virando-se pro trocador, "Esse cara aí é metido a esperto, mas não me engana. Tá ouvindo, né?"
"Tô sim, senhora", disse o trocador.
"Não me chama de senhora não que eu não sou velha", pro trocador, "aliás, pra você eu posso até ser tia, mas", pro motorista, "pra você, eu sou irmã, devo ter quase a mesma idade. Vem me chamar de tia que eu te enfio o cacete."

Coitado, com certeza o motorista era mais novo que ela.

"Vou matar aquele safado!"
"De quem que a senhora tá falando, não é de mim não, né?", perguntou o motorista.
"Aquele safado que me trocou por aquela vagabunda. Ah, mas eu mato. Só tenho que descobrir onde o safado tá morando agora. É nessa rua, Lourenço da Veiga, na Ribeira, só sei que fica perto da praia."
"Tem um monte de praia a Ribeira."
"Mas eu vou achar o safado. Vocês estão duvidando? Vou chegar lá , tenho que comprar o porteiro, vou perguntar 'O safado tá em casa? Ele tá acompanhado?', se ele disser que sim eu lhe dou 10 reais e fico lá esperando o safado descer com a piranha."
"Mas por que vai matar o cara? Vocês terminaram mal?", perguntou o garoto - antes eu achava que era uma mulher - que sentava ao lado dela.
"Só vou terminar matando. Pensa que vou dar mole assim pra urubu? Tá amarrado. Vou matar bonito."

Um casal que sentava no banco atrás do dela saltou na Praça do Grego. A mulher não perdeu a chance:

"Olha o chifre!", disse, enquanto o cara saía. Quando a kombi passou por eles, o casal se beijava. A velha trepou no trocador e enfiou a cabeça pela janela: "Pega mesmo, beija gostoso!!!!" E voltando pra dentro: "Corajosa ela, de beijar um corno."

Todo mundo na kombi só rindo, eu inclusive. O garoto e ela trocavam sussurros escutáveis:

"Se quiser deixa esse cara pra lá e vai lá pro quiosque onde eu trabalho. Lá tem muito macho."
"Muito macho mermo? Olha que eu vou, hein? Nesses quiosques eu vejo só mulher..."
"Onde eu trabalho só tem homem."

O garoto saltou logo depois, na Praia da Bica. A mulher não deixou pra depois:

"Esse aí é gay. Tá vendo os trejeitos? Não tenho dúvida. Mas não pode ter preconceito não, menino, a vida tá aí pra gente viver como quiser, o importante é ser feliz, não importa como. Eu já peguei muito homem na minha vida, e vou te dizer, homem é muito bom. Eu, na minha época dos 20 anos, vivia pegando homem, não passava um que não me dirigisse o olhar."

Acredito. Passamos pelo Sunshine, um motel que fica no final da Praia da Bica.

"Esse Sunshine aí... Todo dia eu tava aí namorando, não me escapava um. Tem uma garagem subterrânea, o carro descia assim... Ih, eles fizeram reforma, não era assim não."
"Eles fecharam essa entrada, por cima. Agora, só dá pra entrar lá por baixo, pela praia", esse foi o trocador.
"Você já foi, motorista, aí no Sunshine?"
"Eu não, nunca fui."
"Ahhh, tá com vergonha de falar, né, mas foi sim, bonitão desse jeito..."

Passou um tempo calada.

"Ai, que calor, meu Deus do Céu, me abana, vai, menino, vou sentar na janela que é mais fresco, não posso chegar lá pra pegar meu macho de volta toda suada, toda feia, né? Tenho que ir assim, bonitona de nascença, cheirosinha... Mas, como eu ia dizendo, na época dos meus 20 anos peguei muito homem, principalmente fuzileiro... Esse aí é fuzileiro... Gosto muito de fuzileiro naval... Fuzileiro e da Aeronáutica... Ia praquela praia ali do Bananal, nossa, tem vinte anos que não vou à praia, e aqui da Ilha então, essas praias eram tão limpas, dava até pra namorar lá dentro da água, agora tudo virou esgoto. O Bananal já passou?"
"Já, sim, senhora."

Mentira. O Bananal é lá do outro lado, a kombi nem passa por lá pra ir pra Ribeira.

"Ia muito praquela praia do Bananal, sabe onde é? Ali do lado, onde tem aquela vaca. Vaca não, é onça. A onça em cima da pedra, a praia onde tem a onça em cima da pedra. Ali tem aquele batalhão do Exército [não é batalhão, é reserva da Marinha...], cansei de pegar aqueles oficiais musculosos ali... Ali é Exército ou Marinha?"
"Ali é Marinha", disse o motorista.
"Então, cansei de pegar fuzileiro ali, muito bom, muito bom. Aquele safado vai me pagar..."

Saltou o cara que estava do meu lado, com fone no ouvido, alheio às divagações da senhora, no batalhão da PM.

"Olha só, maior cara de bandido. Ninguém diz, né, mas esse aí é bandido. Eu conheço quando vejo um... Eu já te paguei?"
"Pagou não."
"Paguei sim, te dei 2 reais, não vem com essa conversa não... Só tenho 5 reais pra voltar pra casa, se eu te der o que tenho, como eu volto? A pé? Você não pode esquecer, hein? E eu, então, sou inesquecível, né verdade, motorista?"

O motorista nem retrucou. Melhor não contrariar. E ela não tinha que ter mais dinheiro pra subornar o porteiro do prédio do tal fuzileiro?
Estávamos perto do mangue.

"Onde tá a praia?"
"A praia tá aqui atrás, a gente tem que ver que rua é essa de que a senhora tá falando", o trocador se virou pra mim - só restávamos eu e ela de passageiras - e perguntou se eu sabia onde ficava essa rua, eu respondi que não. "Deve ser uma dessas ruas aqui perto da ACM, tem que ficar olhando as placas..."

Depois dessa começou o temporal e a mulher ficou reclamando que ia chegar lá pra matar o cara fedendo a cachorro molhado e, nisso, eu saltei na ACM. Com certeza deve ter falado uma gracinha a meu respeito. Ninguém merece...

domingo, 22 de novembro de 2009

Dia do zumbi

E aí, como foram de feriadão? Feriado é bom, né? Principalmente quando cai numa sexta-feira e o fim de semana é antecipado: menos um dia de trabalho, de estudos, de acordar cedo, de aturar ônibus cheio, um calor desgraçado, gente suada. Mais um dia para o nosso descanso, muito merecido.

Mas não entendo até hoje a criação desse feriado da Consciência Negra, dia 20 de novembro. Não digo que seja desnecessário - nem necessário, porque o que o Brasil mais tem é feriado -, e não digo isso por causa do descanso. Acho importante sim um dia em homenagem aos negros, que tanto fizeram e fazem parte da História do país, além de importantes para a construção da identidade do povo e da cultura brasileira. O que não entendo é o dia da Consciência Negra ser exatamente no dia 20 de novembro.

A data foi concebida pelo projeto de lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, por ser o aniversário de morte de Zumbi dos Palmares, o líder do Quilombo de Palmares e principal representante da luta do negro contra a escravidão que morreu no ano de 1695, em combate. Desde então é tido como um herói nacional.

Mas há algum tempo li em alguma publicação - acho que foi a revista Superinteressante - ter sido provado pelos historiadores e estudiosos do assunto que toda esta história é uma farsa. Zumbi pode ter sido sim um grande líder, mas diz-se que era carrasco, maltratava os companheiros e que a história da traição de um antigo parceiro, Antônio Soares, que culminou em uma emboscada para capturá-lo e matá-lo não passa de lenda para inflar ainda mais seu martírio. Pelo que contam ele foi casado com uma branca e teve cinco filhos. Devido à sua importância, teve o status de rei entre os negros que o cultuavam como a um deus e por causa disso ele chegou a ter escravos. Como assim?

O Quilombo dos Palmares era uma comunidade autossustentável formado por escravos fugidos das fazendas. Ocupava uma área próxima ao tamanho de Portugal (!) e era ocupado por aproximadamente 30 mil pessoas. Zumbi nasceu livre, mas foi capturado por um missionário português aos 6 anos que o batizou de Francisco. Aos 15 anos ele fugiu, e dez anos mais tarde já tomava as decisões do Quilombo contra determinações portuguesas e desafiava o então líder de Palmares, Ganga Zumba. Com o argumento de que não era justo que os quilombolas fossem libertados e os outros negros continuassem escravos, prometeu liderar a rebelião e resistir contra a Coroa.

No entanto, alguns autores defendem a ideia de que os escravos que se recusavam a ir para o Quilombo eram capturados e convertidos em cativos. Ou seja, eram escravos de escravos. A Luta de Palmares não seria uma revolta contra a escravidão como um todo, mas uma recusa da própria. Que consciência é essa?

***
Ah, hoje é feriado em Niterói - dia de Arariboia, um índio. Só para efeito de curiosidade: Arariboia é tido como um representante da cidade do outro lado da ponte, como muita gente sabe - ele tem até uma estátua em frente à estação das barcas -, mas, na verdade, o dito cujo nasceu aqui, na Ilha do Governador - pra dizer mais a verdade ainda, aqui do lado da minha casa (rs). Ele lutou ao lado dos portugueses contra os franceses de Villegaignon e, por causa dessa atitude heroica, Mem de Sá (o governador do nome da Ilha) lhe deu uns lotes de terra onde? Em Niterói, para onde ele se mudou com sua família. ;D

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Maratona de Filmes Parte III

04/10 - Depois de O Hospedeiro e O bom, o mau e o feio - este da última edição do Festival -, assistir a um filme coreano é fichinha, assim pensei quando fui ver Sede de sangue (Bakjwi, Coreia do Sul, 2009), do mesmo diretor de Oldboy. O título é tosco, tudo bem, mas você deve se preparar para ver tosquices hilárias por mais de duas horas de filme (aliás, por que tão grande?). O ator mais popular do país - acho que ele faz todos os filmes produzidos lá, não é possível -, Kang-ho Song, interpreta um carismático padre que se submete a uma experiência que visa descobrir a cura para um curioso vírus. Apesar de a experiência fracassar, o padre sai vivo, mas com perturbadores efeitos colaterais: não pode expor a pele ao sol, se sente mais forte e tem sede de sangue. Após uma série de peripécias, convencido de que se transformou num vampiro, apaixona-se pela esposa fogosa de um amigo de infância bobalhão. Enquanto ele quer evitar matar pessoas inocentes para conseguir alimento, Tae-joo diverte-se com a situação de desespero e depravação. O filme é muito bom caso você goste de uma história regada a sangue e tosquices à moda coreana. Os atores, assim como todos do lado oriental do mundo, expressam-se exageradamente para dar ao filme um ar ainda mais hilário. Pretende-se um filme de terror cult, mas, assim como o excelente O Hospedeiro, não passa de um filme de terror trash bem pipoca.

06/10 - Filmes de guerra sempre foram um filão na cinematografia norte-americana. De Sem novidades no front (1930), passando sem dúvida pelos norte-americanos ...E o vento levou (1939), A ponte do rio Kwai (1957), Apocalypse now (1979), Platoon (1986) e A lista de Schindler (1993), pelo italiano A vida é bela (1998) e pelo bósnio Terra de ninguém (2001), a O resgate do soldado Ryan, as principais guerras pelas quais o mundo foi obrigado a presenciar foram muito bem representadas. Primeira Guerra, Segunda Guerra, Guerra do Vietnã, Guerra do Golfo... Não há mundo sem guerra e não há guerra sem mundo (como disse alguém aí que eu não lembro). E a Guerra do Iraque, e suas tentativas de desmoralização, é a bola da vez.


Assim como não há mundo sem guerra, não há guerra sem baixas. The Messenger trata particularmente disso: das mortes num mundo exterior, o mundo daqueles que permanecem vivos, do ponto de vista de dois soldados que são encarregados de dar a triste notícia às famílias. Woody Harrelson e Ben Foster vivem os mensageiros capitão Stone e sargento Montgomery, que devem seguir as rígidas regras de conduta enquanto a informação é transmitida - esperar apenas cinco minutos se o parente mais próximo não estiver presente, não tocar os familiares, não reagir violentamente, repetir exatamente o mesmo texto, não demonstrar emoção etc. Montgomery conhece a tragédia da guerra, já esteve lá e volta aos Estados Unidos como um herói, recebendo então a incumbência de se juntar a Stone. Acaba se envolvendo proibidamente com a viúva de um dos soldados a quem eles vão dar o recado.

The Messenger, do mesmo roteirista de Não estou lá, o filme sobre Bob Dylan, participou do Festival de Sundance e do Festival de Berlim e pode ser visto como um tipo de filme-denúncia: trata principalmente do orgulho do Exército americano de abordar a forma de lidar com a morte para com as famílias. Trata, sobretudo, das consequências terríveis que uma guerra inventada criou para os jovens soldados que agora retornam.

Continua...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Maratona de Filmes Parte II


02/10 - Gosto particularmente de filmes estrangeiros - leia-se não norte-americanos - por se aproximarem mais de produções independentes, sem muitos recursos financeiros e um roteiro bem amarrado e tenso. É o que acontece com Piquenique (Pescuit sportif, Romênia/França, 2008). O filme é curto, mas se estende pela sua tensão. O recurso da câmera tremida que faz as vezes de primeira pessoa é um tanto batido em filmes de suspense, como A bruxa de Blair tanto popularizou. Mas, a despeito do que os espectadores podem concluir a partir da sinopse, Piquenique não faz esse gênero. Mihai e Mihaela, um casal em crise, saem para passear e, no caminho, atropelam uma prostituta "acidentalmente", como se descobre logo depois. A mulher tem a ideia de escondê-la na floresta, com medo de represálias quando o crime viesse à tona. A partir daí, o casal e a prostituta embarcam numa situação cheia de segredos, emoções escondidas, discussões e desejos que beiram o experimentalismo. A crise da relação passa a uma crise de consciência, em que os envolvidos se encontram numa situação-limite e são obrigadas a deixar de lado seus princípios.

Logo em seguida fui ver Shirley Adams (Shirley Adams, África do Sul/EUA, 2009), um filme pra lá de arrastado que explora fortemente a fotografia e a expressão dos atores. Donovan ficou tetraplégico há um ano e sua mãe, Shirley Adams, luta sozinha - foi abandonada pelo marido quando ele não suportou a situação do filho - para manter a casa e cuidar do filho. Quando Tamsin, um estudante que faz trabalho voluntário no hospital da região chega a fim de ajudá-la com as tarefas, Shirley renova sua esperança em vez seu filho curado da depressão que o atormenta. No entanto, podemos perceber que os sentimentos e as emoções são delicadas e estão sempre à flor da pele, e independem da capacidade e da vontade de terceiros em superá-las. É um filme bonito, que explora a delicadeza das ações humanas e da solidariedade e, principalmente, o ilimitado amor de mão, mas, ao mesmo tempo, confere um ar de tragédia e estopor em tudo isso.

O último filme do dia foi O amor escondido (L'amour couché, França/Itália, 2007), também escolhido em cima da hora. O filme, de produção italiana mas falado em francês, conta com a atriz Isabelle Huppert, uma das francesas homenageadas do Festival, ao lado de Jeanne Moreau. Não posso dizer que se trata de um filme ruim: é extremamente arrastado e bate na mesma tecla inúmeras vezes. É a história de uma mulher internada numa clínica psiquiátrica depois de ter tentado cometer suicídio pela terceira vez. É um filme sobre a arte de amar. Danielle (Huppert), a protagonista, relata à psiquiatra suas maiores dificuldades decorrentes de uma gravidez indesejada e um casamento às pressas: a incapacidade de amar seu marido e, principalmente, a filha. O filme se pretende a um filme de arte, com várias digressões e fantasias, mas não consegue atingir este fim.

Continua...

Maratona de Filmes Parte I

Sim, eu sei que estou beeeem atrasada. Tenho várias postagens aqui engatilhadas, mas, cara, não tenho tempo de terminar de escrevê-las. Tempo é uma coisa preciosa pra mim - e silêncio também - e ultimamente tenho investido nele com muito trabalho... e algumas sessõezinhas de cinema porque também sou filha de Deus.

Então, depois deste último dia de repescagem do Festival do Rio - que teve início no dia 25 de setembro e terminou em 8 de outubro - que resolvi parar um pouco com tudo e falar dos filmes a que assisti nessas duas semanas de muita correria e diversão. Gosto do Festival devido à diversidade de países que participam, preferindo me arriscar com filmes da África do Sul, Romênia e Sri Lanka a assistir os mais pops norte-americanos. Acabei não escapando muito deles, e ainda perdi Abraços partidos, de Pedro Almodóvar, que eu ansiava muito, e desisti de Bastardos inglórios, pela proximidade da estreia. Consegui assistir a dez deles, um verdadeiro recorde depois de alguns anos sem frequentar o festival com afinco. Tinha feito um esquema (como você confere abaixo) para assistir a uns vinte filmes, embora soubesse que nunca poderia dar conta de tudo, pela disponibilidade e pelo dinheiro - mas por que não sonhar, né? hehe


30/09 - O primeiro dia teve um saldo positivo. Assisti a um filme italiano escolhido em cima da hora, justamente por não ter conseguido chegar a tempo de conseguir um ingresso para o filme de Almodóvar. Trata-se de Trio de damas e hábitos nupciais (Tris di donne i abiti nuziale, Itália, 2009), que ganhou o último Festival de Veneza. O título é infeliz, e ainda deixa uma interpretação ambígua que pode ser esclarecida pela sinopse do filme. Franco Campanella é um homem casado, pai de Giovanni e Luisa e precisa comprar um vestido para a filha, cujo casamento se aproxima. Apesar de ser um marido e pai amoroso e trabalhador, Franco se vê quebrado por ter perdido tudo no pôquer. Não há muito mais a se destacar no filme, além de uma belíssima trilha sonora e da ótima atuação de Martina Gedeck, atriz poliglota que fez A vida dos outros. É um filminho básico de se ver, mas que não ousa muito na direção.

Saí de Botafogo correndo a tempo de ver O desinformante! (The informant, EUA, 2009) em Copacabana. Se no primeiro filme, o título deixa a desejar, neste os tradutores fizeram bem seu trabalho. Steven Soderbergh dirige Matt Damon - seu companheiro na trilogia Onze (Doze, Treze) homens - neste filme hilário, adaptação do livro The Informant: a true story, que, por sua vez, conta a história verídica de Mark Whitacre, empresário do alto escalão de uma agroindústria que se torna informante para o FBI. Ouvi muita gente dizer que talvez Matt Damon concorra ao Oscar pelo papel. Ele é versátil, concordo, tem talento para a comédia - vide cenas hilárias de Treze homens -, consegue sair da pele do enigmático matador Jason Bourne para engordar a ponto de vermos ali onde era um tanquinho uma obscena barriguinha, deixar crescer bigode e usar peruca para interpretar Whitacre. Matt Damon aqui está para a comédia como Julia Roberts está para o drama em Erin Brockovich, também do diretor. Soderbergh, que tem a segunda parte de Che também exibida no Festival, conduz a história com muito humor, embora eu ache difícil de ser acompanhada inicialmente devido à linguagem complexa das histórias inventadas pelo protagonista. Dou mais destaque às pérolas que Whitacre solta quando faz digressões em off, como quando fala da frase bomba-relógio. Outro ponto alto do filme é a trilha sonora, que me fez lembrar os seriados de espião, tipo Agente 86.

Nas próximas postagens descrevo os outros quatro dias de overdose de Festival do Rio. Continua...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A menina que adora livros (Livros: Parte 1)

Fui iniciada no hábito da leitura quando ainda nem sabia ler. Quando era criancinha, antes de completar 5 anos, meu pai lia para mim as revistinhas da turma da Mônica e eu ia acompanhando os quadrinhos e os desenhos. Com certeza Seu Maurício de Sousa influenciou muita gente. Lia e relia, e eu sempre queria saber mais sobre as histórias, sempre tinha curiosidade de saber sobre tudo, de ler sobre tudo. Quando finalmente - e para o alívio dos meus pais - aprendi a ler, devorava os gibis com uma fome voraz, passava a ler os livros didáticos pedidos no colégio para o ano letivo quando as aulas ainda nem tinham começado e por aí fui.


Foi nesse caminho que li O pequeno príncipe pela primeira vez, aos 8 anos, e comecei a devorar os livros infanto-juvenis. Minha família sempre teve o hábito de ler e de incentivar a leitura. Percebendo que eu gostava da coisa, minha tia acabou por me transformar numa seguidora de livros de suspense (ao mesmo tempo que me apresentava os Beatles). Ela me deu o primeiro de muitos do gênero: era um exemplar do Círculo do Livro de A perseguição, um infanto-juvenil de Sidney Sheldon. Gostei, e fiz coleção dos livros do autor. Concordo que Sidney Sheldon, como muitos escritores de suspense ou policiais, adota uma fórmula fixa em que apenas muda os nomes dos personagens, os lugares e os temas. O mesmo acontece com Dan Brown e seus Código DaVinci, Anjos e Demônios etc. Sei que alguns de vocês podem achar que esses livros são feitos para vender e não acrescentam em nada. Mas, sabe, suspense é um gênero que cativa o leitor, que faz querer saber o que vai acontecer, e isso faz com que ele queira sempre ler mais e mais. E lhe abre as portas para os outros gêneros.

Aconteceu isso comigo. Parti para outras praias: Vargas Llosa, García Márquez, Verissimo, Saramago, Eça, Castelo Branco, Camus... Romancistas que despertaram uma reflexão mais aprofundada da literatura, mais voltada para o comportamento e a psicologia humanos. Não que eu concorde com a distinção e a divisão que fazem entre a literatura dita clássica e a de massa. Para mim, é tudo literatura, tudo tem algo a acrescentar, a enriquecer o leitor. Todos os livros levam à criação e à reflexão.

Não por acaso gosto de trabalhar em editora, com revisão. Passo o dia lendo livros, lidando com eles. Leio de autoajuda e de psicoterapia à tragédia rodriguiana. A literatura deve estar em constante renovação e metamorfose. O autor e o leitor transformam-se existencialmente ao longo do percurso, é uma transmissão de ideias, de conhecimento. À originalidade artística do escritor deve corresponder a inventividade hermenêutica do leitor. Ler é interpretar, e interpretar é participar. No lugar da contemplação ociosa, ou até mesmo preguiçosa, deve haver uma participação ativa e passional. É como Bachelard diz, o livro é um "aparelho de indução psíquica", ou seja, desperta no leitor a tentação de se expressar criativamente.

Ele está certo. Não há coisa melhor que folhear, degustar cada palavra, construir cada personagem e mergulhar na invenção. Ler estimula a capacidade criativa, a facilidade da escrita, enriquece o vocabulário e, ainda por cima, entretém. Não há coisa melhor ainda que conversar sobre a viagem à terra da sensibilidade e da reflexão. É nesse cenário de paixão que me preparo para ir à Bienal do Livro, a mais rica feira dedicada a esses blocos de papel que tanto me fizeram sentir medo, rir, chorar, conhecer e me apaixonar por esse mundo.

***
A Bienal vai acontecer entre 10 e 20 de setembro e abre às 9h nos dias úteis e 10h nos fins de semana. Para conferir a programção completa, acessem o site: http://www.bienaldolivro.com.br
Espero encontrar vocês lá!

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A experiência que saiu do controle


Autocracia é a forma de governo em que o líder possui poder absoluto e ilimitado. O líder autocrata planeja permanecer para sempre no poder e promove um regime ditatorial em que a lavagem cerebral de seu povo é constante, a fim de que possam difundir sua ideologia e sua causa. Ainda que não haja uma ideologia ou uma causa bem determinadas.

Em A Onda (Die Welle, Alemanha, 2008), um professor de um colégio alemão resolve aplicar ao seu curso de autocracia - que dura apenas uma semana - a seguinte experiência: criar um microrregime autocrático em sala de aula para, pedagogicamente, fazer os alunos perceberem como os alemães aderiram ao nazismo.

É claro que há certas coisas inseridas aí. Primeiro, a própria culpa que os alemães carregam até hoje pela barbaridade que foram o Holocausto e o nazismo. No primeiro dia de aula, o professor em questão, Rainer Wenger (Jürgen Vogel) - descolado e popular entre os alunos, que curte punk rock e aparece na cena inicial vestido com a camisa dos Ramones -, pergunta aos estudantes se eles acham possível a Alemanha de hoje sucumbir a uma ditadura ou a um regime como o nazismo. A maioria reage, com a justificativa de que os alemães atuais já estão mais do que bem-instruídos sobre o assunto, ou seja, não haveria a menor possibilidade de isso acontecer.

Daí passemos ao segundo ponto: dois dos motivos para os alemães terem apoiado o nazismo nos anos 1930 foram a crise econômica em que a Alemanha se encontrava e a falta de motivação da população causada pela derrota na I Guerra e pela própria situação dramática em que vivia. Com uma situação dessa qualquer joão-ninguém, qualquer um que se destacasse com algumas ideias na cabeça e uma oratória brilhante seria adorado e visto como o salvador da pátria, literalmente. Eis que o tal cara era Hitler, um joão-mais-do-que-ninguém, que chegou prometendo mundos e fundos para tirar a Alemanha do fiasco. Mas, para isso, ele precisaria do apoio de cada um que desejasse o mesmo. E deu no que deu.

Não estou dizendo que o horror ocorrido durante a II Guerra tenha tido a permissão da população alemã. Os cidadãos apostavam num líder, num salvador, ou seja, naquele que os tiraria do pesadelo em que viviam, e não que matasse milhões e milhões de pessoas inocentes que nada tinham a ver com isso. Acontece somente que a vontade de sair do pesadelo custou a eles uma bela lavagem cerebral, que consistia em uni-los num grupo, eliminar os que não aceitassem a proposta e defender sua causa até a morte. Tudo para o bem da nação.

No microrregime experimentado por Wenger na sua turma de colegiais, podemos perceber todas estas características juntas. O que começa como uma experiência termina com obsessão, fanatismo e atos de vandalismo. Tudo isso acontece em apenas uma semana. Alunos antes preguiçosos, desmotivados, infelizes ou com conflitos domésticos passam a ter algo a se dedicar, viver por aquilo, uma razão pela qual lutar e defender, anulando o individualismo. Wenger, o führer, estabelece uma pequena ditadura interna, que deveria permanecer ali, entre as quatro paredes da sala de aula: os jovens só deveriam se dirigir a ele como Herr Wenger (e não apenas Rainer), só poderiam falar se autorizados e em pé, deveriam aprender a atuar em comunidade, uns ajudando os outros - separou os grupinhos e colocou alunos fracos e fortes lado a lado. Daí para a frente os alunos entenderam o "jogo" e entraram na dança: criaram um uniforme, um nome para o movimento - A Onda -, adesivos, logomarca, home page e até uma saudação. Angariaram simpatizantes, produziram festas e rechaçaram todos aqueles que se negassem a seguir os preceitos do regime. Ao fim de uma semana, os integrantes do movimento lotam um auditório inteiro, possuem uma ligação afetiva de pertencimento, como uma família, e a coisa sai muito do controle.

A Onda, o filme, é uma refilmagem de outro realizado para a TV - The Wave (1981) - e uma adaptação do livro de Todd Strasser, baseado num acontecimento que ocorreu num colégio de Ensino Médio norte-americano em 1967. O professor de história William Ron Jones simulou um regime totalitário fascista, fundamentado no lema "Strength through discipline, strength through community, strength through action, strength through pride" (Força pela disciplina, força pela comunidade, força pela ação, força pelo orgulho). Os alunos levaram tudo aquilo a sério e um deles perdeu uma das mãos ao lidar com explosivos. Jones foi demitido, enquanto Wenger, o professor da ficção, teve muito mais problemas.

Alguns espectadores podem achar que as transformações dos alunos ocorreram rápido demais. Afinal, o curso dura apenas uma semana! A linearidade do roteiro divide a narrativa em dias para, assim, acompanharmos dia a dia a mudança dos estudantes quanto a atitudes e à personalidade. No entanto, essa rapidez pode ser compreendida pela velocidade com que a lavagem cerebral atinge as pessoas. Marco (Max Riemelt), um rapaz calmo, jogador de polo aquático e apaixonado pela namorada, torna-se agressivo e violento. A namorada, Karo (Jennifer Ulrich), por outro lado, é mostrada, no início do filme, como uma menina cheia de vontades, mandona e louca para se livrar dos pais extremamente liberais. Ela é uma das que não seguem o movimento criado por Wenger e o alerta inutilmente para a situação que se está formando.

O final - calma, não vou contar - é espetacularmente brilhante para um filme, mas absolutamente terrível para ter acontecido na vida real. O diretor, Dennis Gansel, consegue transferir a mensagem da alienação, do poder que as palavras exercem sobre uma pessoa - inclusive se esta pessoa passa por problemas e for jovem. O poder de limar com as próprias opiniões para ser aceito, para pertencer a algum lugar, para ser querido por outrem. O poder do desenvolvimento pela ordem, pela igualdade e pela proteção por estar em uma comunidade. O poder de entrar na onda.

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1- William Ron Jones, o professor que originalmente adotou a experiência, foi coautor do filme The Wave, feito para a TV, e participou da premiere mundial de Die Welle no Festival de Sundance do ano passado.
2- Como não poderia ser mais a ver, um blog foi criado para divulgar o filme, onde podemos encontrar dados sobre a experiência e o trailer: http://seguindoaonda.blogspot.com/
3- Aqui está o artigo que Ron Jones escreveu sobre a experiência, "The third wave": http://web.archive.org/web/20080211081934/http://www.vaniercollege.qc.ca/Auxiliary/Psychology/Frank/Thirdwave.html
4- No site a seguir, há depoimentos de ex-alunos e de Ron Jones, em que ele confessa ter cometido um erro terrível e que a curiosidade falou mais alto: http://www.ronjoneswriter.com/wave.html

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Menos as neuróticas

Nelson Rodrigues já era Nelson Rodrigues quando foi convidado pelo dono do jornal Última Hora para escrever sobre as tragédias e mazelas da sociedade suburbana carioca na coluna "A vida como ela é..." entre os anos 1950 e 1970. Dentre as crônicas publicadas pelo jornal, Elas gostam de apanhar destaca 26 delas dedicadas ao universo feminino, ainda que as mulheres nem sempre sejam as protagonistas - mas são sempre elas que desencadeiam ou resolvem os acontecimentos.

Escrever como Nelson Rodrigues não é difícil: uma pitada de suspense, de drama, de humor, de polêmica, a linguagem do cotidiano, uma carga de paixão, o apelo ao adultério, ao incesto, ao ciúme... Junta-se tudo isso e cria-se uma história à moda do dramaturgo (que faria 97 anos ontem se não tivesse morrido em 1980 interrompendo sua brilhante carreira). Mas o que faz de Nelson único são as criativas conclusões das crônicas, na maioria das vezes surpeendentes.

Os personagens femininos são predominantes na obra do escritor. Em Elas gostam de apanhar, elas são mães, esposas, filhas, irmãs e, invariavelmente, cumprem seu respectivo papel. A mulher, na época de Rodrigues - época em que casamento era para sempre, os filhos viviam na barra da saia das mães, as viúvas vestiam luto eterno - e na cabeça do próprio escritor, servia de mau exemplo aos leitores por suas ações, por seus pensamentos muito modernos para o tempo ao qual pertenciam. As 26 crônicas selecionadas demonstram isso: mulheres que não têm medo de enfrentar o preconceito ou o atraso da sociedade, lutam contra seus medos e se permitem certas vontades. Se não há amor no casamento, por que não buscá-lo fora dele? Se o professor bonitão é casado, por que não matar sua esposa "acidentalmente"? Se seu marido foi um santo de homem em vida, é melhor investigar direito...

Ao mesmo tempo que exercita sua veia liberal, algumas vezes Nelson Rodrigues não escapa do conservadorismo dos valores morais de sua época. Mães que se aproveitam de um certo complexo de Édipo, mães que trocam a vida conjugal para dedicar-se à criação dos filhos, filhas que tomam conta das mães mais assanhadas são comuns em suas histórias. Nelson Rodrigues reinventa as notícias de jornal, recriando um novo tipo de ficção - a ficção jornalística que tantos autores depois insistiram em imitar. Nenhum chegou aos pés do toque dramático e poético que deu aos fatos policiais contados sob o olhar objetivo do jornalismo.

No entanto, os tempos mudaram, a sociedade se transformou. Hoje talvez Nelson Rodrigues não escandalize tanto quanto polemizou e quebrou barreiras em sua época. O escritor e jornalista não via as mulheres como simples passarinhos numa gaiola, passarinhos sem voz - dentro e fora de casa. Não admitia que fossem tratadas como ignorantes, como livres do pecado, livres do mal. Ninguém está livre disso. Não importa que sejam adúlteras, ciumentas ou possessivas: importava-lhe que as mulheres tivessem atitudes e, mais que tudo, sentimentos. Que não bancassem a cega ou a moça desprotegida no meio do tiroteio. E, em Elas gostam de apanhar, Nelson Rodrigues cumpre a promessa: as mulheres assumem suas vontades. É batata! Elas gostam de apanhar - menos as neuróticas, claro.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Brega e tosca

Venho aqui fazer uma pequena elucubração acerca da novela Caminho das Índias, a única que eu vejo (felizmente atualmente). Não que eu goste. Se for para dizer que gosto de alguma parte da novela posso arriscar somente a parte da trama que se passa na Índia, cujos atores e cenas são infinitamente melhores que o resto. Vide o duelo de titãs que os espectadores testemunharam esta noite, entre Opash (Tony Ramos) e Shankar (Lima Duarte), filho e pai - mas eles não sabem desse dado peculiar. Além do bom elenco, a cultura indiana é motivo para boas risadas, apesar de um certo exagero em alguns momentos.

Todo mundo já sabe que a novela é brega, e as novelas da Glória Perez, sejam ambientadas na Índia, no Marrocos ou nos Estados Unidos, são bregas. Mas vamos ao que interessa. A pequena elucubração se deve à sequência que foi ao ar no final do capítulo de segunda-feira e início de terça. A tontinha Nanda (Maitê Proença) aparece no apartamento do ex-amante Mike/Eric (Odilon Wagner) com pistola em punho desejando a morte do golpista sob o testemunho ocular de Ivone (Letícia Sabatella). Eis que a mulher me dispara uma bala em slow motion, bem (ou mal) a la Matrix, e a sequência é cortada com a dita cuja passando na frente dos olhos espantados de Ivone. Tosco é pouco.

Beleza. O cara morreu então? O capítulo de terça-feira abre com a sequência horrivelmente brega, e a bala, ainda em slow motion, acerta em cheio o braço do infeliz, que, ainda em slow motion, cai estabanado no sofá. As reações apavoradas de Ivone e Nanda foram enriquecidas com... mais slow motion. Como pode isso, gente? A breguice é tanta que superou a péssima direção de outra sequência antológica da novela nesses últimos dias (falo sobre isso mais abaixo). Parece que o responsável pelos efeitos especiais quis mostrar que aprendeu a fazer esse efeito e pegou a primeira cena que apareceu na frente para aplicar seu aprendizado. Aff...

A única coisa que se salvou desta cena foi a maquiagem feita em Ivone (ela de novo) para simular o olho roxo e a cara amassada que Melissa (Christiane Torloni) lhe deixou. Ao descobrir que o marido (Humberto Martins) deu as joias que ela tanto queria à amante psicopata, Melissa enfiou a mão na cara de Ivone no banheiro de um spa. Vê-se aqui que o motivo da pancadaria não foi a traição propriamente dita, mas porque a outra ganhou as joias que a oficial tanto ambicionava. Como a psicopatia está na mente e não nos músculos, Ivone apanhou bizarramente. Mas os espectadores não puderam constatar, de fato, a sincronia do movimento de mãos de Melissa e a virada de rosto de Ivone. Isso quando acontecia de o diretor mostrar o rosto da mulher, que ficou a maior parte do tempo escondido atrás de móveis ou objetos. Já houve tantas cenas do gênero na telenovela brasileira (minhas favoritas são o arranca-rabo entre Donatela (Claudia Raia) e Flora (Patrícia Pillar) - ah, que saudade da Flora - e a porrada que Maria Clara (Malu Mader) deu em Laura (Cláudia Abreu), também num banheiro). Além da tosquice, a câmera pegou uns ângulos pelos quais a pancadaria parecia ser ainda mais fajuta. Coisa de novela mexicana. E o que foi aquele uivo gutural de Ivone ao ser deixada estropeada pela rival no fim de tudo?

Talvez o diretor queira unir o brega e o tosco que já se fazem presentes nas novelas de Glória Perez à breguice e à tosquice da direção e da trama. Algumas cenas são tão encheções de linguiça que o espectador se pergunta, quando acaba um capítulo: "O que aconteceu hoje?" Flashbacks demais, cenas forçadas demais... - ai, que saudade da minha A Favorita. Isso sem falar nos alertas que Glória nos arrouba a assistir quando os personagens Ivone e Tarso (Bruno Gagliasso) aparecem. Quando Ivone dá uma de psicopata desvairada, com todos os sintomas à vista, ou quando Tarso tem uma de suas loucas crises, quem vem nos socorrer? O doutor Castanho (Stênio Garcia), com aquelas intermináveis explicações sobre a psicopatia ou a esquizofrenia. Não tendo como encaixar essas explicações, optaram por enfiar o Dr. Castanho e aquele estagiário burro de psicologia no meio de um cena de Ivone ou Tarso, interrompendo a linearidade da novela.

Peço o retorno da nossa inesquecível psicopata favorita - não há ninguém como ela! -: Flora. Invade essa novela horrenda e mata todo mundo, com aquela delicadeza e a manipulação que só você tem (tinha). Sem breguices e sem tosquices, sangue, psicopatia e pancadaria de primeira qualidade.