Todo mundo já sabe que a novela é brega, e as novelas da Glória Perez, sejam ambientadas na Índia, no Marrocos ou nos Estados Unidos, são bregas. Mas vamos ao que interessa. A pequena elucubração se deve à sequência que foi ao ar no final do capítulo de segunda-feira e início de terça. A tontinha Nanda (Maitê Proença) aparece no apartamento do ex-amante Mike/Eric (Odilon Wagner) com pistola em punho desejando a morte do golpista sob o testemunho ocular de Ivone (Letícia Sabatella). Eis que a mulher me dispara uma bala em slow motion, bem (ou mal) a la Matrix, e a sequência é cortada com a dita cuja passando na frente dos olhos espantados de Ivone. Tosco é pouco.
Beleza. O cara morreu então? O capítulo de terça-feira abre com a sequência horrivelmente brega, e a bala, ainda em slow motion, acerta em cheio o braço do infeliz, que, ainda em slow motion, cai estabanado no sofá. As reações apavoradas de Ivone e Nanda foram enriquecidas com... mais slow motion. Como pode isso, gente? A breguice é tanta que superou a péssima direção de outra sequência antológica da novela nesses últimos dias (falo sobre isso mais abaixo). Parece que o responsável pelos efeitos especiais quis mostrar que aprendeu a fazer esse efeito e pegou a primeira cena que apareceu na frente para aplicar seu aprendizado. Aff...

A única coisa que se salvou desta cena foi a maquiagem feita em Ivone (ela de novo) para simular o olho roxo e a cara amassada que Melissa (Christiane Torloni) lhe deixou. Ao descobrir que o marido (Humberto Martins) deu as joias que ela tanto queria à amante psicopata, Melissa enfiou a mão na cara de Ivone no banheiro de um spa. Vê-se aqui que o motivo da pancadaria não foi a traição propriamente dita, mas porque a outra ganhou as joias que a oficial tanto ambicionava. Como a psicopatia está na mente e não nos músculos, Ivone apanhou bizarramente. Mas os espectadores não puderam constatar, de fato, a sincronia do movimento de mãos de Melissa e a virada de rosto de Ivone. Isso quando acontecia de o diretor mostrar o rosto da mulher, que ficou a maior parte do tempo escondido atrás de móveis ou objetos. Já houve tantas cenas do gênero na telenovela brasileira (minhas favoritas são o arranca-rabo entre Donatela (Claudia Raia) e Flora (Patrícia Pillar) - ah, que saudade da Flora - e a porrada que Maria Clara (Malu Mader) deu em Laura (Cláudia Abreu), também num banheiro). Além da tosquice, a câmera pegou uns ângulos pelos quais a pancadaria parecia ser ainda mais fajuta. Coisa de novela mexicana. E o que foi aquele uivo gutural de Ivone ao ser deixada estropeada pela rival no fim de tudo?

Talvez o diretor queira unir o brega e o tosco que já se fazem presentes nas novelas de Glória Perez à breguice e à tosquice da direção e da trama. Algumas cenas são tão encheções de linguiça que o espectador se pergunta, quando acaba um capítulo: "O que aconteceu hoje?" Flashbacks demais, cenas forçadas demais... - ai, que saudade da minha A Favorita. Isso sem falar nos alertas que Glória nos arrouba a assistir quando os personagens Ivone e Tarso (Bruno Gagliasso) aparecem. Quando Ivone dá uma de psicopata desvairada, com todos os sintomas à vista, ou quando Tarso tem uma de suas loucas crises, quem vem nos socorrer? O doutor Castanho (Stênio Garcia), com aquelas intermináveis explicações sobre a psicopatia ou a esquizofrenia. Não tendo como encaixar essas explicações, optaram por enfiar o Dr. Castanho e aquele estagiário burro de psicologia no meio de um cena de Ivone ou Tarso, interrompendo a linearidade da novela.
Peço o retorno da nossa inesquecível psicopata favorita - não há ninguém como ela! -: Flora. Invade essa novela horrenda e mata todo mundo, com aquela delicadeza e a manipulação que só você tem (tinha). Sem breguices e sem tosquices, sangue, psicopatia e pancadaria de primeira qualidade.
